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Entenda Porque Você Paga Tão Caro Pelo Seguro Do Seu Carro



    Boa parte dos brasileiros que vive nos grandes centros urbanos passou a incluir mais um item na sua cesta de despesas obrigatórias: o seguro de veículos. Muita gente já chama o corretor com o despachante, como se o seguro fosse uma exigência ou um acessório indispensável para tirar o carro da loja. E não é sem razão. A quantidade de acidentes, furtos e roubos recomenda essa prudência e, por isso, é plenamente justificável que haja uma constante preocupação com o seu custo e as coberturas oferecidas.

    As perguntas se repetem seguindo, quase sempre, uma mesma linha: por que os preços variam se não há inflação? Porque, para um mesmo veículo, os preços são diferentes de uma seguradora para outra? Sem entrar em considerações técnicas mais profundas, é preciso observar que o cálculo de qualquer seguro leva em conta o risco a que o bem segurado está exposto.

    Assim, se o número de acidentes, furtos e roubo cai, o preço do seguro tende a diminuir; se acontece o contrário, tende a aumentar. É claro que outros fatores influem, como a inflação de custos na reposição de peças, componentes ou conserto e as diferenças de coberturas oferecidas de seguradora para seguradora e mesmo de apólice para apólice. Basicamente, porém, o valor do seguro é determinado pelo grau de insegurança pública e pelos cuidados e respeito dos motoristas às leis de trânsito.

    No caso da insegurança, a pouca eficiência do poder público no combate à criminalidade expõe todos nós a riscos muito acima do que seria razoável suportar e, infelizmente, pouco nos resta fazer. Resta-nos continuar manifestando a nossa indignação diante da falta de ações governamentais eficientes e de políticas que mudem esse quadro a cada dia mais preocupante e, paralelamente, adotar precauções individuais para aumentar a segurança pessoal e de nosso patrimônio.

    Mas prática comum. A prudência adotada para não andar com o carro antes de fazer o seguro muitas vezes desaparece depois da apólice contratada e, tanto ao dirigir como ao estacionar, os cuidados passam a ser menores porque o veículo está segurado.

    Tudo isso é um erro grave, porque os roubos, furtos e acidentes indenizados vão se refletir na contratação do seguro no ano seguinte. Os dados de 2000 mostram a seguinte situação: o seguro de automóveis atingiu uma arrecadação de cerca de R$ 7,3 bilhões e pagou em indenizações R$ 5,2 bilhões, equivalente a 72,1% do valor arrecadado.

    Sinigfica para os seus segurados R$ 72,1, sem contar as despesas administrativas e de comercialização. É uma soma muito expressiva no setor automobilístico. O valor R$ 5,2 bilhões representa a compra de mais de 250 mil carros ao preço unitário de R$ 20 mil; ou, para usar uma comparação mais atual, a indenização de cinco plataformas da Petrobrás iguais a que afundou na bacia de Campos (RJ).

    Esse volume de recursos, que movimenta a economia, gera empregos e traz proteção às pessoas, poderia ser maior se observarmos que o Brasil tem 7,5 milhões de veículos segurados para uma frota de cerca de 24 milhões de veículos.

    As dificuldades para sua expansão mais rápida estão, justamente, no custo do seguro, porque todos estão cientes da sua importância e, na maioria das vezes, só não o contrata por falta de renda. E o seu custo só vai baixar se diminuirmos a sinistralidade. Portanto, assim como os consumidores, as seguradoras têm maior interesse na redução do preço do seguro até para ampliar o seu mercado e a sua base de clientes.

    Por que isso não acontece? Providências já foram tomadas, mas os resultados só devem aparecer a médio prazo. As seguradoras estão, por exemplo, estabelecendo parcerias com as autoridades de segurança para diminuir os furtos e roubos e adotando outras providências para reduzir os riscos de acidentes.

    Há, porém, um fator importante que depende mais dos segurados que das seguradoras: o combate às fraudes. Enquanto a sociedade não se conscientizar que assumir a culpa indevida numa batida de carros é fraude, que solicitar conserto de partes que não se envolveram no acidente é fraude e outros procedimentos do rol do "jeitinho brasileiro", a sinistralidadde vai continuar engordando. E, o que é pior, por pessoas decentes, incapazes de cometer o menor delito, mas que, em relação às seguradoras, não têm o mesmo comportamento.

    O mercado segurador está iniciando uma batalha contra as fraudes. Já foram instituídos mecanismos para identificar fraudadores e fraudes que, estima-se, chega a 20% das indenizações pagas, ou mais de R$ 1 bilhão por ano.

    Essa luta, no entanto, não terá o menor sucesso se nós não conseguirmos engajar os nossos segurados, se toda a sociedade não entender que uma fraude cometida contra o seguro certamente é um prejuízo para a seguradora. Mas é, acima de tudo, um crime contra todos os segurados porque não existe seguro isoladamente.

    O sistema funciona como uma espécie de condomínio em que as despesas provocadas por uns são pagas por todos e, por isso, quando a sinistralidade supera os índices previstos, a única alternativa é mexer nos preços.


João Elisio Ferraz de Campos - Presidente da Fenaseg
Matéria publicada na Gazeta Mercantil - 16/05/2001



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